Fórmula 1 está sacrificando seus grandes circuitos em nome do espetáculo?

Madri não deveria ser outro Mônaco O circuito de Madri não precisa ser condenado por ser novo.

A estreia de Madri expõe uma contradição da Fórmula 1 moderna: carros cada vez mais sofisticados correndo em pistas que, muitas vezes, parecem pequenas demais para eles.

Existe algo estranho acontecendo na Fórmula 1.

A categoria está construindo carros cada vez mais rápidos, tecnológicos e sofisticados, mas, ao mesmo tempo, parece cada vez mais interessada em colocá-los para correr em circuitos estreitos, travados e com poucas oportunidades de ultrapassagem.

A estreia do novo circuito de Madri é um bom exemplo dessa contradição.

O problema não é Madri existir.

O problema é Madri fazer parte de uma tendência que pode estar empurrando para fora do calendário alguns dos circuitos que melhor representam aquilo que sempre foi a Fórmula 1.

Quando o cenário passa a ser mais importante que a corrida

Nos últimos anos, a Fórmula 1 descobriu o enorme potencial comercial das corridas urbanas.

Grandes cidades, prédios iluminados, festas, celebridades, shows e milhões de dólares movimentando a economia local.

Tudo isso é excelente para o negócio.

Mas a Fórmula 1 não deveria esquecer que, antes de ser um grande espetáculo comercial, ela é uma competição automobilística.

E uma competição automobilística precisa de espaço para que os pilotos possam competir.

É justamente aí que surge a dúvida.

De que adianta colocar um carro de quase duas toneladas, extremamente largo e carregado de tecnologia, em uma pista na qual ultrapassar se torna uma missão quase impossível?

Mônaco é histórico. Mas não precisa ser modelo

Mônaco é intocável do ponto de vista histórico.

É uma das corridas mais famosas do mundo. Faz parte da identidade da Fórmula 1 e dificilmente alguém defenderia simplesmente apagar Monte Carlo da história.

Mas Mônaco também representa um problema que a categoria deveria evitar reproduzir.

A pista é estreita.

Os carros são enormes.

As ultrapassagens são raras.

Em muitos anos, o sábado acaba sendo mais importante do que o domingo.

O piloto pode fazer uma volta extraordinária na classificação e praticamente definir sua posição para toda a corrida.

Isso pode ser aceitável como uma característica única de Mônaco. O que não parece saudável é transformar essa característica em tendência.

Madri não deveria ser outro Mônaco

O circuito de Madri não precisa ser condenado por ser novo.

Pelo contrário.

A Fórmula 1 precisa de renovação. Precisa chegar a novos lugares, conquistar novos fãs e apresentar novos desafios.

Mas um circuito novo também deveria ser pensado para os carros que realmente competem na Fórmula 1.

E esse é o ponto central.

Os carros atuais são largos, pesados e extremamente dependentes da aerodinâmica. Se a pista não oferecer espaço suficiente, a tecnologia perde parte de sua importância.

A corrida passa a depender muito mais da classificação, do Safety Car, do Virtual Safety Car, das estratégias e dos pit stops.

Tudo isso faz parte da Fórmula 1.

Mas não deveria substituir a disputa roda a roda.

E os velhos circuitos?

Enquanto novos circuitos urbanos aparecem no calendário, alguns dos nomes mais tradicionais da Fórmula 1 precisam lutar para continuar existindo.

E isso deveria incomodar o fã.

Spa-Francorchamps.

Monza.

Silverstone.

Suzuka.

Interlagos.

São nomes que não precisam de apresentação.

Cada um possui características próprias. Cada um tem curvas que fazem parte da história da categoria. Cada um já proporcionou corridas e momentos que atravessaram gerações.

Esses circuitos oferecem algo que não pode ser comprado simplesmente construindo uma pista nova:

identidade.

Você pode construir um circuito moderno em qualquer cidade.

Mas não é possível fabricar décadas de história.

A Fórmula 1 não pode virar apenas um produto de entretenimento

É claro que a Fórmula 1 precisa ser um negócio.

Não existe campeonato mundial sem dinheiro.

Os promotores querem retorno financeiro. As equipes precisam de patrocinadores. A categoria precisa crescer.

Tudo isso é legítimo.

O problema começa quando o aspecto comercial passa a determinar quase tudo.

Se o principal critério para escolher um Grande Prêmio for quanto dinheiro uma cidade consegue pagar, existe o risco de a qualidade esportiva virar um detalhe secundário.

E esse seria um erro grave.

Porque o fã pode gostar de um grande evento.

Pode gostar de uma corrida noturna.

Pode gostar de uma cidade bonita.

Pode gostar de shows e celebridades.

Mas ele também quer assistir a uma boa corrida.

O calendário deveria premiar a qualidade, não apenas o dinheiro

A Fórmula 1 deveria estabelecer uma regra simples:

um novo circuito pode entrar, mas não necessariamente precisa significar a saída de um circuito tradicional.

Se houver espaço para ampliar o calendário, ótimo.

Incluam novos países.

Criem novos mercados.

Experimentem novos formatos.

Mas não transformem Spa, Monza, Suzuka ou outros templos do automobilismo em peças descartáveis.

O calendário precisa de equilíbrio.

Precisamos de circuitos urbanos.

Precisamos de circuitos tradicionais.

Precisamos de pistas de alta velocidade.

Precisamos de pistas técnicas.

Precisamos de diferentes desafios.

O que não precisamos é de vinte e tantas corridas que comecem a parecer variações do mesmo conceito.

O perigo da padronização

Talvez esse seja o maior perigo.

Quando muitos circuitos começam a seguir a mesma lógica, a Fórmula 1 perde personalidade.

Uma pista vira apenas mais uma corrida.

Depois outra.

E outra.

Até que o fã comece a olhar para o calendário sem encontrar diferenças significativas entre determinados Grandes Prêmios.

A beleza da Fórmula 1 sempre esteve justamente no contrário.

Monza não é Spa.

Spa não é Suzuka.

Suzuka não é Interlagos.

Interlagos não é Silverstone.

E é exatamente essa diferença que faz cada corrida ser especial.

Não sou contra Madri. Sou contra o abandono da identidade

É importante deixar isso claro.

Não existe nada de errado em a Fórmula 1 correr em Madri.

Não existe nada de errado em ter Las Vegas, Miami ou outras corridas urbanas.

O problema aparece quando a categoria começa a acreditar que precisa escolher entre tradição e modernidade.

Não precisa.

É perfeitamente possível ter as duas coisas.

O que não podemos aceitar é uma Fórmula 1 em que os grandes circuitos históricos sejam sacrificados simplesmente porque uma nova cidade oferece um contrato maior.

Porque, quando isso acontece, a categoria pode ganhar dinheiro no curto prazo e perder algo muito mais difícil de recuperar:

sua identidade.

A pergunta que precisa ser feita

A Fórmula 1 está crescendo.

Isso é inegável.

Mas crescer não significa necessariamente melhorar.

É preciso perguntar que tipo de Fórmula 1 queremos construir para o futuro.

Uma Fórmula 1 em que os carros disputam espaço em pistas estreitas, onde a classificação muitas vezes define a corrida?

Ou uma Fórmula 1 que também preserve os grandes desafios que fizeram pilotos como Senna, Schumacher, Prost, Alonso e tantos outros se tornarem lendas?

O futuro pode ter Madri.

Pode ter Las Vegas.

Pode ter novas cidades.

Mas esse futuro também precisa ter Spa, Monza, Silverstone, Suzuka e Interlagos.

Porque uma coisa é modernizar a Fórmula 1.

Outra, completamente diferente, é modernizar a ponto de esquecer o que tornou a Fórmula 1 especial.

E talvez essa seja a discussão que o novo circuito de Madri deveria provocar.

Aceleraaa com a gente, Balaclava F1.

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