Lucas di Grassi: da Fórmula 1 ao título mundial da Fórmula E
A trajetória de Lucas di Grassi no automobilismo é uma história de persistência, inovação e capacidade de enxergar o futuro antes de muita gente.
Nascido em São Paulo, em 1984, o brasileiro começou a competir no kart ainda muito jovem. Aos 10 anos, já disputava provas e, ao longo dos anos seguintes, construiu uma carreira sólida nas categorias de formação até chegar ao sonho de praticamente todo piloto: a Fórmula 1.
Mas foi na Fórmula E que di Grassi encontraria o campeonato no qual deixaria uma das marcas mais profundas de sua carreira.
Dos karts ao sonho da Fórmula 1
A relação de Lucas di Grassi com o automobilismo começou de maneira bastante próxima das pistas. Ele frequentava a loja de kart de seu tio em Interlagos e começou ali a desenvolver sua paixão pelas corridas.
O caminho até a Fórmula 1 passou por diversas categorias de monopostos. O brasileiro ganhou destaque nas categorias de base e, em 2005, conquistou uma das vitórias mais importantes de sua carreira até aquele momento: o tradicional Grande Prêmio de Macau, uma das provas mais prestigiadas do automobilismo de formação.
Depois, di Grassi chegou à GP2, principal categoria de acesso à Fórmula 1 naquela época, e terminou o campeonato como vice-campeão.
O desempenho abriu definitivamente as portas para a principal categoria do automobilismo mundial.
A chegada à Fórmula 1
Em 2010, Lucas di Grassi realizou o sonho de estrear na Fórmula 1, defendendo a recém-criada Virgin Racing ao lado do experiente Timo Glock.
A equipe utilizava o modelo VR-01, um carro que sofria com limitações de desempenho e confiabilidade. A temporada foi difícil, e di Grassi não conseguiu marcar pontos no campeonato. Ainda assim, a participação representou a chegada do brasileiro ao mais alto nível do automobilismo tradicional.
Sua passagem pela Fórmula 1 durou apenas aquela temporada.
Mas sair da Fórmula 1 não significou o fim de sua carreira internacional. Pelo contrário: nos anos seguintes, Lucas encontraria novos caminhos e começaria a construir uma trajetória ainda mais relevante no automobilismo de resistência e, posteriormente, na mobilidade elétrica.
Audi e as 24 Horas de Le Mans
Em 2012, di Grassi tornou-se piloto oficial da Audi, entrando para o programa de endurance da montadora alemã.
Foi uma mudança importante em sua carreira.
No Mundial de Endurance, o brasileiro passou a competir em uma das modalidades mais exigentes do automobilismo. As 24 Horas de Le Mans, em especial, exigem muito mais do que velocidade: estratégia, confiabilidade, resistência física e capacidade de trabalhar em equipe são fundamentais.
Di Grassi conquistou diversos pódios em Le Mans e consolidou sua reputação como um piloto extremamente técnico.
Foi justamente nessa fase que surgiu uma oportunidade que mudaria sua história.
O convite para algo completamente diferente
A Fórmula E ainda nem existia como campeonato quando Lucas di Grassi começou a se aproximar do projeto.
Em 2012, o brasileiro foi procurado por Alejandro Agag, empresário e futuro fundador da categoria. A ideia era criar um campeonato mundial utilizando carros totalmente elétricos.
Naquele momento, a proposta parecia extremamente ousada.
Automobilismo elétrico ainda era visto por muitos como uma experiência tecnológica distante das grandes competições tradicionais. Não havia garantia de que o campeonato conseguiria atrair fabricantes, pilotos, público ou patrocinadores.
Di Grassi, entretanto, acreditou na ideia.
Ele se tornou o primeiro piloto a se comprometer com a Fórmula E e participou ativamente do desenvolvimento do projeto desde seus primeiros passos. Seu conhecimento técnico foi utilizado no desenvolvimento do protótipo que serviu como prova de conceito para o primeiro carro da categoria, o GEN1.
Ou seja: Lucas di Grassi não chegou à Fórmula E apenas para ser piloto.
Ele ajudou a construir a própria categoria.
A primeira corrida e a primeira vitória da história
Quando a Fórmula E finalmente saiu do papel, em 2014, di Grassi estava no grid.
E sua estreia foi histórica.
No dia 13 de setembro de 2014, em Pequim, na China, foi disputado o primeiro E-Prix da história da Fórmula E.
Lucas di Grassi venceu.
O brasileiro tornou-se, assim, o primeiro vencedor de uma corrida de Fórmula E.
A vitória tinha um significado especial: o piloto que havia apostado na categoria ainda em sua fase embrionária acabava de vencer justamente a primeira corrida de sua história.
Era o começo de uma das relações mais importantes entre um piloto e a Fórmula E.
Os primeiros anos: terceiro, vice e, finalmente, campeão
Na primeira temporada, di Grassi terminou o campeonato na terceira colocação.
Na temporada seguinte, 2015/2016, a disputa pelo título foi ainda mais intensa.
O brasileiro chegou à decisão brigando diretamente com outro piloto brasileiro, Nelson Piquet Jr., que acabou conquistando o campeonato.
Di Grassi terminou como vice-campeão.
Foi uma derrota difícil, mas também serviu para mostrar que o brasileiro estava definitivamente entre os principais pilotos da nova categoria.
A terceira temporada seria diferente.
2016/2017: o ano do título
Na temporada 2016/2017, Lucas di Grassi entrou novamente na disputa pelo campeonato pela equipe ABT Schaeffler Audi Sport.
Do outro lado estava o suíço Sébastien Buemi, então um dos principais nomes da Fórmula E.
A temporada foi marcada por uma disputa extremamente equilibrada.
Di Grassi não tinha necessariamente o carro mais dominante em todas as situações. Seu grande diferencial foi a capacidade de extrair pontos mesmo quando as condições não eram favoráveis.
Segundo a própria Fórmula E, duas corridas foram especialmente importantes: Hong Kong e Cidade do México. Em ambas, decisões estratégicas da equipe transformaram situações potencialmente ruins em resultados importantes para a luta pelo campeonato.
O campeonato chegou à última etapa com tudo em aberto.
Montreal: a consagração
A decisão aconteceu em Montreal, no Canadá, em julho de 2017.
Di Grassi chegou à etapa final precisando reverter uma desvantagem de 10 pontos para Buemi.
E conseguiu.
Depois de uma temporada inteira de disputas, estratégias, ultrapassagens e momentos difíceis, Lucas di Grassi tornou-se campeão da Fórmula E na temporada 2016/2017.
Era seu primeiro título mundial em uma categoria de monopostos.
A conquista também tinha um significado especial porque representava a recompensa por três temporadas de intensa disputa: terceiro lugar no primeiro campeonato, vice-campeonato no segundo e, finalmente, o título no terceiro.
O próprio di Grassi posteriormente descreveu a conquista em Montreal como seu momento favorito na Fórmula E, lembrando que chegou ao Canadá como azarão na disputa e saiu de lá como campeão.
Um campeão diferente
O título de 2017 ajudou a consolidar Lucas di Grassi como um dos principais nomes da história da Fórmula E.
Mas sua importância para a categoria vai muito além do troféu.
Ele foi o primeiro piloto a acreditar oficialmente no projeto, participou do desenvolvimento do primeiro protótipo, venceu a primeira corrida e depois tornou-se campeão mundial.
É difícil encontrar uma trajetória tão diretamente ligada à construção de um campeonato.
E talvez por isso di Grassi tenha recebido o apelido de “Mr. Formula E”.
O legado começou antes do título
Quando se olha para trás, o título de 2017 parece quase a consequência natural de uma história que começou alguns anos antes.
Lucas di Grassi saiu da Fórmula 1, passou pelo endurance e encontrou na Fórmula E uma oportunidade de participar de algo maior do que simplesmente uma nova categoria de corridas.
Ele ajudou a desenvolver uma tecnologia, apostou em um campeonato que ainda precisava provar que poderia funcionar e, quando as luzes se apagaram para a primeira corrida, estava lá.
E venceu.
Três anos depois, tornou-se campeão.
Sua história mostra que, às vezes, uma carreira não é definida apenas pelo número de vitórias ou títulos conquistados.
Alguns pilotos entram para a história porque vencem.
Lucas di Grassi entrou para a história também porque ajudou a construir o campeonato no qual se tornou campeão.
Aceleraaa com a gente, Balaclava F1.

