O automobilismo brasileiro perdeu hoje um de seus maiores mestres.
Claudio Carsughi morreu nesta quinta-feira, 10 de setembro de 2026, aos 93 anos, em São Paulo. Italiano de nascimento, brasileiro por escolha e jornalista por vocação, Carsughi construiu uma trajetória que se confunde com a própria história do jornalismo esportivo e automobilístico no Brasil.
Mais do que um comentarista, ele foi uma referência. Um daqueles profissionais que não precisavam levantar a voz para serem ouvidos. Seu conhecimento técnico, sua capacidade de análise, sua memória privilegiada e seu jeito elegante de fazer jornalismo fizeram de Claudio Carsughi uma figura única.
E talvez seja no automobilismo que seu legado encontre uma de suas maiores dimensões.
Um mestre diante dos motores
Carsughi tinha uma formação que ajudava a explicar a profundidade de suas análises: era engenheiro formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Para ele, falar de um automóvel nunca foi simplesmente falar de velocidade.
Era falar de engenharia, comportamento, desempenho, estratégia, técnica e, principalmente, das pessoas que estavam dentro daqueles carros.
Durante décadas, acompanhou de perto a evolução do automobilismo, tornando-se uma das vozes mais respeitadas quando o assunto era Fórmula 1. Sua passagem pela Rádio Jovem Pan, onde trabalhou por décadas, marcou gerações de ouvintes.
Carsughi tinha uma característica que hoje parece cada vez mais rara: ele estudava aquilo sobre o que falava.
Sua opinião não vinha simplesmente do entusiasmo de um torcedor. Vinha de conhecimento, observação e experiência.
Por isso, quando Claudio Carsughi analisava uma corrida, uma equipe ou um piloto, havia sempre algo a aprender.
Um jornalista que atravessou gerações
A história de Carsughi começou muito cedo.
Nascido em Arezzo, na Itália, em 1932, chegou ao Brasil ainda criança, em 1946. Aos poucos, construiu aqui uma carreira extraordinária, atuando em rádio, jornais, revistas, televisão e, posteriormente, também na internet.
Foi correspondente do Corriere dello Sport e acompanhou acontecimentos importantes do esporte brasileiro. No futebol, esteve presente em cinco Copas do Mundo consecutivas, entre 1970 e 1986.
Mas foi no automobilismo que seu nome ganhou uma dimensão especial.
Carsughi ajudou a transformar o jornalismo automobilístico brasileiro em algo mais profundo. Não bastava dizer quem ganhou ou quem perdeu. Era necessário explicar por que determinado carro era mais rápido, por que um piloto tomava determinada decisão e o que havia por trás de um resultado.
Essa maneira de enxergar o esporte ajudou a formar uma geração de leitores, ouvintes e apaixonados por carros e corridas.
O homem que sabia transformar conhecimento em conversa
Talvez uma das maiores qualidades de Claudio Carsughi fosse justamente sua capacidade de transmitir conhecimento sem transformar informação em arrogância.
Ele podia falar de engenharia, de Fórmula 1, de futebol ou de automóveis com a autoridade de quem havia estudado e vivido tudo aquilo, mas também com a simplicidade de quem estava conversando com um apaixonado pelo esporte.
Seu sotaque italiano era inconfundível. Seu humor, muitas vezes ácido, também.
Mas havia sobretudo credibilidade.
Em uma época em que a informação esportiva chega instantaneamente e em enorme quantidade, Carsughi pertencia a uma escola diferente: a escola do jornalista que precisava conhecer profundamente o assunto antes de abrir o microfone ou escrever uma linha.
Foi também pioneiro nos testes automotivos e esteve entre os profissionais que ajudaram a consolidar esse segmento no país. Em 1980, por exemplo, foi o primeiro jornalista a testar o Volkswagen Gol.
Uma vida dedicada ao jornalismo
Carsughi trabalhou em alguns dos mais importantes veículos de comunicação esportiva e automobilística do país, incluindo Gazeta Esportiva, Jornal da Tarde, Placar, Quatro Rodas, ESPN Brasil e SporTV, além de sua longa trajetória no rádio.
Na revista Quatro Rodas, foi colunista especializado em automóveis durante 25 anos, consolidando ainda mais sua posição como uma das grandes referências do jornalismo automotivo brasileiro.
Seu currículo impressiona.
Mas talvez seu maior patrimônio não esteja nos cargos que ocupou ou nos veículos onde trabalhou.
Está naquilo que deixou nas pessoas.
Nos jornalistas que aprenderam com ele.
Nos profissionais que o admiravam.
Nos apaixonados por automobilismo que cresceram ouvindo sua voz.
E em todos aqueles que passaram a compreender um pouco melhor o mundo dos carros e das corridas depois de escutá-lo.
O automobilismo fica mais silencioso
A morte de Claudio Carsughi representa o fim de uma era.
Uma era em que jornalistas como ele eram verdadeiras instituições dentro das redações. Profissionais que carregavam consigo décadas de histórias, nomes, números, corridas e acontecimentos.
Carsughi tinha memória para guardar tudo isso.
E tinha a generosidade de compartilhar.
Por isso, sua ausência será sentida não apenas pelo jornalismo esportivo, mas por todos aqueles que enxergam no automobilismo algo maior do que simplesmente carros acelerando.
Para milhões de pessoas, as corridas chegaram pela televisão e pelo rádio acompanhadas de uma voz, uma opinião e uma explicação.
E, durante décadas, essa voz foi a de Claudio Carsughi.
Adeus, Mestre Carsughi
Algumas pessoas passam pelo jornalismo.
Outras ajudam a construir o jornalismo.
Claudio Carsughi pertence à segunda categoria.
Seu nome está ligado a uma época de ouro do esporte brasileiro, a grandes pilotos, grandes corridas e grandes histórias. Mas está ligado também a algo que não aparece nas estatísticas: à formação de uma cultura automobilística no país.
Hoje, o Brasil se despede de um jornalista.
O automobilismo se despede de um mestre.
E várias gerações se despedem de uma voz que ensinou que, por trás de cada corrida, existe muito mais do que o resultado da bandeirada.
Existe história.
Existe técnica.
Existe paixão.
E existe memória.
Obrigado, Mestre Carsughi.
Que as próximas gerações continuem acelerando — e aprendendo — com tudo aquilo que você nos ensinou.
Aceleraaa com a gente, Balaclava F1.




