Na Ferrari, não basta ser competitivo. É preciso vencer. E, quando as vitórias não aparecem, a pressão inevitavelmente chega ao comando da equipe.
Frédéric Vasseur sabe disso.
Desde que assumiu o comando da Scuderia Ferrari, em 2023, o francês convive com uma das tarefas mais difíceis do automobilismo mundial: reconstruir uma equipe que carrega uma história gigantesca, uma torcida apaixonada e uma imprensa italiana que acompanha cada movimento de Maranello com uma lupa.
E, nas últimas semanas, essa lupa ficou ainda maior.
O resultado é um ambiente no qual o nome de Vasseur voltou a aparecer com frequência nas discussões sobre o futuro da Ferrari.
Na Ferrari, o segundo lugar nunca é suficiente
A Ferrari não é uma equipe comum.
É uma instituição dentro da Fórmula 1.
Por isso, qualquer resultado que em outra equipe poderia ser considerado positivo muitas vezes é recebido em Maranello como uma oportunidade perdida.
Vasseur assumiu a Ferrari justamente com a missão de mudar processos, melhorar a organização interna e criar uma estrutura capaz de transformar competitividade em resultados. Nos últimos meses, houve avanços importantes no desenvolvimento do carro e na cultura de inovação da equipe.
Mas existe uma diferença enorme entre melhorar e conquistar títulos.
E é justamente nessa diferença que a pressão começa a crescer.
A imprensa italiana não perdoa
A relação entre a Ferrari e a imprensa italiana sempre foi intensa.
Jornais e sites especializados acompanham a equipe diariamente. Uma decisão errada no pit wall, uma estratégia questionável ou um desempenho abaixo do esperado rapidamente se transforma em manchete.
Vasseur, por ser francês e ocupar o cargo mais importante da equipe depois da direção da Ferrari, também acaba sendo cobrado como o responsável final por aquilo que acontece na pista.
A situação é ainda mais delicada porque a Ferrari possui dois pilotos de enorme peso: Lewis Hamilton e Charles Leclerc.
E administrar dois pilotos desse tamanho exige muito mais do que simplesmente oferecer um carro rápido.
É preciso estabelecer prioridades, definir regras e, sobretudo, tomar decisões rápidas.
Hamilton e Leclerc: o problema que Vasseur precisa administrar
O episódio do Grande Prêmio da Itália colocou novamente essa questão em evidência.
Hamilton e Leclerc protagonizaram uma disputa na primeira curva que terminou com prejuízo para ambos — Hamilton acabou comprometido na corrida e Leclerc abandonou. O episódio aumentou a discussão sobre a necessidade de a Ferrari estabelecer regras mais claras para o comportamento dos dois pilotos.
O problema para Vasseur é que não existe uma solução simples.
Dar prioridade a Hamilton significa assumir o risco de criar tensão com Leclerc, um piloto que está há anos ligado ao projeto Ferrari.
Tratar os dois exatamente da mesma maneira pode significar deixar escapar oportunidades importantes durante as corridas.
E não tomar nenhuma decisão também é uma decisão.
Esse talvez seja um dos maiores desafios do francês.
A cobrança por decisões mais firmes
Uma das principais críticas que surgem nesse ambiente é justamente a percepção de que a Ferrari, em determinados momentos, demora demais para reagir.
O próprio Vasseur já reconheceu problemas de comunicação e certa confusão em decisões estratégicas durante corridas recentes. No GP da Holanda, por exemplo, a equipe perdeu uma oportunidade de pódio após uma execução estratégica problemática, situação que provocou frustração em Hamilton e Leclerc.
Para quem está fora, pode parecer simples.
É só decidir.
Mas, dentro de uma equipe de Fórmula 1, cada decisão envolve dezenas de variáveis, informações de pneus, tráfego, clima, adversários e comportamento do carro.
O problema é que a Ferrari não tem o privilégio de explicar tudo isso depois.
A torcida quer resultado.
A imprensa quer respostas.
E a equipe precisa vencer.
Vasseur está realmente ameaçado?
É preciso separar pressão de demissão.
Uma coisa não significa automaticamente a outra.
A pressão existe. É evidente.
Mas isso não significa que Vasseur esteja necessariamente com os dias contados.
Ao contrário: há sinais de que seu trabalho provocou mudanças estruturais importantes na Ferrari. A equipe passou a apostar mais em soluções próprias e criou uma cultura de desenvolvimento que vem sendo considerada um avanço dentro da organização.
O problema é que, em Maranello, o tempo é um conceito diferente.
A Ferrari pode aceitar um processo de reconstrução.
O que não pode aceitar indefinidamente é ficar sem disputar títulos.
O fantasma de Christian Horner
A situação também ganhou um ingrediente adicional com especulações sobre possíveis alternativas para o comando da Ferrari.
Entre os nomes que passaram a aparecer nesse tipo de discussão está o de Christian Horner, que durante anos comandou a Red Bull e conhece profundamente a pressão existente na Fórmula 1.
Isso, entretanto, deve ser tratado como especulação, e não como uma decisão tomada pela Ferrari.
Mas o simples fato de esse tipo de nome voltar ao debate mostra o tamanho da cobrança sobre Vasseur.
Quando a Ferrari começa a discutir quem poderia substituí-lo, mesmo que apenas nos bastidores e na imprensa, o sinal de alerta já está ligado.
O desafio de Vasseur é maior do que parece
Talvez a maior dificuldade de Frédéric Vasseur seja justamente conseguir fazer a Ferrari entender que uma equipe vencedora não se constrói apenas com um carro rápido.
É necessário criar uma cultura.
Uma estrutura.
Uma hierarquia.
Uma maneira eficiente de tomar decisões.
E, principalmente, uma equipe capaz de transformar oportunidades em vitórias.
Vasseur parece ter entendido isso desde que chegou.
Mas agora chegou a parte mais difícil.
Entregar resultados.
A Ferrari não precisa de outro salvador
Existe uma tendência histórica de a Ferrari procurar um nome capaz de resolver todos os seus problemas.
Já aconteceu com pilotos.
Já aconteceu com engenheiros.
Já aconteceu com chefes de equipe.
Mas a Fórmula 1 moderna não permite mais que um único homem seja responsável por tudo.
Vasseur pode ser um excelente chefe de equipe e, ainda assim, precisar de uma estrutura melhor ao seu redor.
Pode ter um carro competitivo e perder uma corrida por estratégia.
Pode ter dois grandes pilotos e enfrentar problemas de gerenciamento.
Pode acertar nove decisões e ser criticado pela décima.
Esse é o peso de comandar a Ferrari.
O francês contra a máquina de pressão italiana
Frédéric Vasseur chegou a Maranello sabendo exatamente onde estava entrando.
Mas uma coisa é conhecer a história da Ferrari.
Outra é sentir diariamente o peso dela.
Na Itália, a Ferrari não é apenas uma equipe de Fórmula 1. É parte da cultura esportiva do país.
E isso faz com que cada derrota tenha uma dimensão muito maior.
Cada erro de estratégia vira discussão.
Cada abandono vira crise.
Cada vitória gera euforia.
E cada temporada sem título alimenta novamente a pergunta:
“Quando a Ferrari vai voltar a ser campeã?”
É essa pergunta que Vasseur precisa responder.
Não com discursos.
Não com promessas.
Mas com resultados.
Por enquanto, o francês ainda tem argumentos para defender seu trabalho. A Ferrari evoluiu, encontrou soluções técnicas interessantes e mostrou que pode ser competitiva.
Mas a margem de paciência está ficando menor.
Na Ferrari, o relógio nunca para.
E a imprensa italiana sabe disso.
Vasseur agora corre contra o tempo — e contra uma das maiores expectativas do esporte mundial.
Aceleraaa com a gente, Balaclava F1.




