A PREPARAÇÃO FÍSICA; UMA MÁQUINA DENTRO DO COCKPIT

Ayrton Senna e a sua preparação física

Equilíbrio entre corpo e mente foi fundamental para o sucesso de Ayrton Senna na Fórmula 1.

Deitado em uma cama do centro médico do autódromo de Kyalami, com o pescoço imobilizado por um colar cervical e dores por todo o corpo, Ayrton Senna mal conseguia curtir a façanha dupla de chegar ao fim do Grande Prêmio da África do Sul de 1984 e conquistar seu primeiro ponto na categoria. Não dá nem pra rir, rapaz, confessou ao repórter Reginaldo Leme, ainda na sala de recuperação.

Antes da metade da corrida, o carro já estava impossível. Tinha um peso no volante. Na volta de aquecimento, com o tanque até a tampa, eu parei e falei pro meu engenheiro que estava impossível de guiar, de tão pesado que estava o volante. Aí não tinha mais nada que fazer e fui assim mesmo, mas eu não conseguia guiar o carro, era impossível. Um peso que eu nunca senti na minha vida. Eu queria que a corrida terminasse antes da metade porque eu não aguentava mais.

Depois daquela prova, ficava mais claro do que nunca: a fim de triunfar na Fórmula 1, Senna precisaria ter uma máquina em perfeito funcionamento também dentro do cockpit.

UM EXTRAORDINÁRIO ATLETA

Durante sua carreira no kart e no automobilismo inglês, a preparação física estivera em segundo plano – não por falta de gosto ou aptidão, mas apenas porque a dedicação a ela não representaria melhora significativa para seu desempenho nas pistas. Quando assinou com a Toleman, porém, a situação mudou – e o trabalho físico se tornou uma de suas primeiras preocupações.

Além da força e da habilidade para domar os pesados e possantes bólidos da Fórmula 1, era preciso também resistência: as corridas na categoria tinham duração de até duas horas – antes eram raras as vezes em que Ayrton ficava além de 60 minutos ao volante. E assim Senna fez da preparação física uma das chaves de seu sucesso nas pistas, equilibrando corpo e mente como aliados em sua busca pelo máximo desempenho.

Dentre os profissionais que auxiliaram Ayrton nessa área, destacam-se dois nomes, que acabaram sendo complementares na formação do piloto.

O primeiro foi Nuno Cobra. O caminho de ambos se cruzou ainda em 1984; depois de submeter o piloto a uma bateria de exames e testes na Universidade de São Paulo, o preparador físico desenvolveu um programa personalizado, para obter maior tonacidade nos músculos e melhor rendimento cardiovascular.

Mas seu método ia além dos exercícios. De acordo com Cobra, as transformações físicas tinham ligação direta com o crescimento mental, espiritual e emocional do indivíduo – uma ideia que Senna assimilou, com sucesso, de forma completa.

Ao perceber, logo de início, que ele tinha talento do fazer, e seguia de forma absolutamente exata tudo que eu lhe pedia, não apenas no sono, na alimentação e até mesmo na respiração e concentração, vi claramente que tinha em minhas mãos um extraordinário atleta, afirmou Cobra.

FISIOTERAPIA E ALIMENTAÇÃO

O segundo profissional foi o fisioterapeuta austríaco Joseph Leberer, que Ayrton conheceu após ser contratado pela McLaren, em 1988. Leberer, que também chegava naquele ano a escuderia inglesa, passou a cuidar não apenas do corpo, mas também da alimentação do piloto – usando, já naquela época, produtos orgânicos. O trabalho evoluiu para uma duradoura amizade.

Além da questão da comida, fazíamos sessões de fisioterapia trabalhando toda a espinha. Eu tentava ser preciso com ele. E com isso ele foi percebendo que podia confiar em mim, que a performance dele ia melhorar, declarou Leberer.

Embora demandasse muito e quisesse saber o porquê de tudo, Ayrton reconhecia o valor do que você estava fazendo por ele. Ele me disse que, enquanto estivesse pilotando, queria que eu cuidasse dele. E que gostaria de trabalhar comigo depois, recordou o fisioterapeuta. E eu sabia que, se ele achasse que alguém não era bom, trocaria imediatamente. Então tenho muito orgulho disso.

 

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