Por Thierry Balaclava F1
Quem acompanha Fórmula 1 sabe que Interlagos é especial. O público brasileiro é apaixonado, barulhento, fiel e capaz de transformar qualquer domingo de corrida em uma experiência que poucos circuitos do mundo conseguem reproduzir.
Mas existe uma modalidade em que o GP de São Paulo também parece ter se tornado campeão mundial: a corrida pelo ingresso.
E aqui começa a pergunta que precisa ser feita.
Por que, em São Paulo, comprar um ingresso para a Fórmula 1 parece exigir a mesma estratégia de uma equipe tentando colocar dois carros no Q3?
Eu, Thierry Balaclava F1, acompanho a Fórmula 1 de perto e viajo para diversos Grandes Prêmios fora do Brasil. Em diferentes circuitos internacionais, minha experiência como torcedor e fã é outra: há canais de venda diversificados, pontos físicos, bilheterias e, dependendo do evento e da disponibilidade, ingressos que continuam sendo comercializados próximo à realização da corrida.
Em Interlagos, a história frequentemente parece diferente.
E quando o assunto é o GP de São Paulo, aparece no centro dessa discussão um nome conhecido do mercado de entretenimento: Eventim.
A Eventim é a dona da corrida?
Não.
É importante separar as coisas.
A Eventim é a ticketeira oficial do GP de São Paulo. A própria organização do evento informa que todos os ingressos disponíveis são encontrados na plataforma da empresa.
Ou seja: a Eventim não é quem organiza a Fórmula 1, não é dona de Interlagos e não decide sozinha quantos ingressos serão colocados à venda.
Ela é a empresa responsável pela operação de venda dos ingressos.
E justamente por isso a pergunta é inevitável:
quem desenhou esse modelo de comercialização e como ele funciona na prática?
Porque, para o torcedor, pouco importa quem está por trás da engrenagem quando o resultado final é uma tela dizendo “esgotado” poucos minutos depois da abertura das vendas.
O consumidor quer comprar.
O curioso fenômeno do “esgotou”
A venda para o GP de São Paulo de 2026 foi dividida em etapas.
Primeiro veio a pré-venda exclusiva para clientes Porto Bank, em 10 de novembro de 2025. Depois, a pré-venda para American Express e, finalmente, a venda geral, em 17 de novembro. Tudo pela Eventim.
E aí começa o espetáculo.
Não o espetáculo da Fórmula 1.
O outro.
O espetáculo da fila virtual.
O torcedor entra no site, aguarda, espera, atualiza, escolhe setor, tenta colocar o ingresso no carrinho, avança para o pagamento…
E, às vezes, descobre que aquele ingresso aparentemente disponível resolveu fazer uma ultrapassagem por fora da pista e desapareceu.
Há relatos de consumidores justamente nesse sentido: dificuldade para concluir compras, ingressos que desaparecem do carrinho, retorno à fila e problemas durante o processo. Há também reclamações levantando suspeitas sobre a rapidez com que os ingressos aparecem posteriormente em canais de revenda, como o Reclame Aqui.
É preciso deixar claro: reclamação de consumidor ou suspeita publicada em plataforma de reclamações não é prova de irregularidade da Eventim ou de cambismo organizado pela empresa.
Mas também não deveria ser simplesmente ignorada.
Quando dezenas ou centenas de torcedores relatam problemas semelhantes, a pergunta deixa de ser apenas individual.
Passa a ser uma questão de transparência.
E aqui entra o cambismo
Essa talvez seja a parte mais incômoda.
O torcedor comum enfrenta fila virtual.
O ingresso desaparece.
O setor fica “esgotado”.
Mas, pouco depois, começam a aparecer ofertas em canais de revenda.
E aí surge aquela velha pergunta brasileira:
“Mas se acabou tão rápido, acabou para quem?”
É uma pergunta incômoda, mas legítima.
Há reclamações registradas por consumidores relatando justamente a aparição de ingressos em canais de revenda pouco depois da abertura das vendas e questionando como isso é possível. Novamente: isso não comprova que a Eventim esteja envolvida em cambismo.
Mas talvez seja justamente por isso que seria interessante existir uma explicação pública, detalhada e transparente sobre o processo.
Quantos ingressos são disponibilizados em cada lote?
Quantos ficam reservados para patrocinadores?
Quantos são destinados às pré-vendas?
Quantos são disponibilizados para a venda geral?
Quantos ficam para hospitalidade?
Quantos podem ser comprados na bilheteria?
Quantos retornam ao sistema depois de um carrinho abandonado?
E, principalmente:
como o sistema combate compras automatizadas e cambismo?
A bilheteria existe. Mas…
Aqui existe uma ironia ainda maior.
A própria Eventim informa oficialmente que, caso haja disponibilidade, é possível comprar ingressos presencialmente na bilheteria do Autódromo de Interlagos. Para 2026, a operação está prevista a partir de 30 de outubro.
Ou seja: existe bilheteria.
Mas a frase mágica é:
“caso haja disponibilidade”.
É quase como chegar a um restaurante e ouvir:
“Temos mesa, mas só se tiver mesa.”
Tecnicamente impecável.
Jornalisticamente, nem tanto.
Porque a grande questão é saber o que efetivamente estará disponível na bilheteria depois de todo o processo de vendas online, pré-vendas, lotes, reservas comerciais e demais categorias.
“Mas Interlagos lota!”
Sim.
E esse argumento é perfeitamente válido.
Interlagos teve público recorde de aproximadamente 304 mil pessoas no fim de semana de 2025, segundo a própria Fórmula 1. A demanda é gigantesca.
O brasileiro gosta de Fórmula 1.
O brasileiro gosta de Interlagos.
O brasileiro gosta de Ayrton Senna.
E, depois da popularização da categoria com a nova geração de fãs, a procura aumentou ainda mais.
Portanto, ninguém está dizendo que os ingressos deveriam permanecer disponíveis eternamente.
A questão é outra.
Por que o processo precisa ser tão difícil para quem está tentando comprar legitimamente?
Porque uma coisa é um ingresso se esgotar rapidamente.
Outra coisa é o consumidor ter a sensação de que está participando de uma loteria tecnológica.
Thierry Balaclava F1: “Eu compro ingresso fora do Brasil”
É aqui que entra a experiência de quem acompanha a Fórmula 1 internacionalmente.
Viajo para outros Grandes Prêmios e observo como funciona o acesso do público em diferentes países.
E existe uma diferença que merece ser discutida.
Não estou dizendo que todos os outros circuitos do calendário funcionam exatamente da mesma maneira — cada promotor possui seu próprio modelo comercial, suas categorias de ingressos, seus parceiros e seus canais de venda.
Mas, na minha experiência pessoal viajando para diferentes GPs, é possível encontrar ingressos e atendimento presencial de maneiras que tornam a relação com o torcedor menos parecida com uma corrida eliminatória.
Em São Paulo, muitas vezes parece que o torcedor precisa vencer a classificação antes mesmo de chegar ao autódromo.
E olha que Interlagos já tem o S do Senna.
Não precisava inventar outro.
Talvez o problema não seja a demanda. Seja a transparência.
Essa é a discussão que considero mais importante.
Não há nada de errado em um evento muito procurado vender seus ingressos rapidamente.
Não há nada de errado em criar pré-vendas para patrocinadores ou parceiros.
Não há nada de errado em utilizar uma plataforma especializada em venda de ingressos.
O problema começa quando o torcedor não consegue entender como os ingressos foram distribuídos.
Se 100 mil ingressos são colocados à venda e acabam em minutos, tudo bem.
Mas quantos estavam realmente disponíveis para o público geral?
Quantos já haviam sido comercializados nas pré-vendas?
Quantos estavam vinculados a parceiros?
Quantos foram destinados a clientes corporativos?
Quantos estavam disponíveis por setor?
E quantos efetivamente chegaram à bilheteria?
São perguntas simples.
E respostas transparentes poderiam acabar com boa parte das suspeitas.
Eventim precisa explicar?
Talvez seja justamente esse o momento de a empresa explicar.
Não porque uma reclamação individual prove alguma irregularidade.
Não prova.
Mas porque a Eventim ocupa uma posição central na comercialização do maior evento automobilístico do Brasil e, portanto, tem interesse — e responsabilidade — em explicar ao público como o sistema funciona.
A própria plataforma se apresenta como a responsável oficial pela venda do GP.
Então por que não publicar um relatório transparente após a abertura das vendas?
Algo simples:
Ingressos disponíveis: X
Pré-venda Porto Bank: X
Pré-venda Amex: X
Venda geral: X
Patrocinadores e parceiros: X
Hospitalidade: X
Bilheteria: X
Ingressos posteriormente liberados por desistência ou cancelamento: X
Compras bloqueadas por suspeita de irregularidade: X
Pronto.
Acabou a novela.
Enquanto isso, o torcedor continua na fila
A Fórmula 1 gosta de velocidade.
Os carros chegam a mais de 300 km/h.
Mas, para comprar um ingresso para Interlagos, às vezes parece que a maior velocidade necessária é a do dedo no mouse.
Clique.
Atualiza.
Fila.
Escolhe.
Carrinho.
Erro.
Volta.
Fila novamente.
E, finalmente:
“Ingressos esgotados.”
Enquanto isso, o torcedor olha para a internet e encontra anúncios de ingressos.
É nesse momento que a pergunta deixa de ser engraçada.
Se o ingresso oficial acabou, mas aparece para revenda imediatamente depois, quem conseguiu comprá-lo?
Essa é uma pergunta que merece resposta.
Não acusação.
Resposta.
A Fórmula 1 não pode transformar o torcedor e fã em cambista de si mesmo
O fã brasileiro não quer privilégio.
Quer previsibilidade.
Quer saber quando começa a venda.
Quer entrar na fila.
Quer comprar dentro das regras.
Quer pagar o preço oficial.
Quer receber seu ingresso.
E quer assistir à corrida.
Parece simples.
E deveria ser.
Interlagos tem uma das torcidas mais apaixonadas da Fórmula 1. A própria categoria reconhece a atmosfera singular do circuito e o peso da torcida brasileira.
Talvez esteja na hora de tratar esse torcedor com a mesma seriedade com que se trata qualquer consumidor de um dos maiores eventos esportivos do planeta.
Porque vender ingresso em poucos minutos pode ser sinal de enorme sucesso.
Mas fazer o torcedor acreditar que precisa ser Max Verstappen, Lewis Hamilton e Ayrton Senna ao mesmo tempo para conseguir comprar um ingresso não deveria ser considerado parte da experiência.
E fica a pergunta para a Eventim, para a organização do GP de São Paulo e para todos os envolvidos na operação:
quando os ingressos acabam tão rapidamente, o que exatamente acabou — os ingressos ou a transparência sobre como eles foram distribuídos?
A pergunta está aí, então aceleraaa com a gente, Eventim na resposta….




