O tão aguardado primeiro Grande Prêmio de Fórmula 1 no Madring, em Madri, terminou neste domingo com uma constatação que já vinha sendo desenhada desde os treinos: o novo circuito espanhol é impressionante como desafio para os pilotos, mas deixa muito a desejar quando o assunto é proporcionar ultrapassagens.
A vitória ficou com Kimi Antonelli, da Mercedes, seguido por Max Verstappen, da Red Bull, e Lando Norris, da McLaren. Mas, para além do resultado, o grande assunto no paddock foi o comportamento do novo traçado durante a corrida.
Antes mesmo da largada, pilotos como Max Verstappen e George Russell já demonstravam preocupação. O holandês chegou a classificar as possibilidades de ultrapassagem como praticamente inexistentes, enquanto Russell também alertava que seria muito difícil ganhar posições na pista sem uma degradação significativa dos pneus.
E a corrida acabou confirmando boa parte desses temores.
Um circuito espetacular para pilotar, mas ruim para disputar posições
O Madring apresenta uma combinação incomum: trechos extremamente rápidos, muros próximos e setores estreitos, fazendo com que qualquer erro custe caro.
Para o piloto, isso cria uma volta extremamente exigente. Para o espectador, porém, o problema aparece quando um carro mais rápido fica preso atrás de outro.
Max Verstappen já havia chamado atenção para uma característica particularmente problemática do circuito: algumas das principais zonas de frenagem são feitas enquanto o carro ainda está esterçando. Isso dificulta que o piloto coloque o carro lado a lado com o adversário e prepare uma manobra de ultrapassagem.
Ou seja: não basta ter mais velocidade. É preciso encontrar espaço.
E, no Madring, esse espaço praticamente não existe.
Verstappen: pouca esperança de ultrapassagem
Antes da corrida, Verstappen foi um dos pilotos mais contundentes ao analisar o problema.
O tetracampeão mundial avaliou que as características das curvas de Madri tornariam as ultrapassagens extremamente difíceis. Para ele, a única possibilidade real de mudança na ordem seria uma degradação muito elevada dos pneus, capaz de criar diferenças grandes de desempenho entre os carros.
O piloto da Red Bull também defendeu que os pilotos deveriam ter uma participação maior na concepção dos circuitos, justamente para evitar situações em que uma pista seja tecnicamente espetacular, mas ofereça pouca ação roda a roda.
E esse é um ponto importante.
Um circuito pode ser desafiador sem necessariamente ser ruim para corridas. O problema surge quando a dificuldade para ultrapassar transforma a competição em uma disputa de classificação prolongada.
George Russell já havia feito o alerta
George Russell também não estava otimista antes da prova.
Depois dos primeiros treinos, o britânico afirmou que seria muito difícil ultrapassar no Madring. A degradação dos pneus poderia ajudar a criar oportunidades, mas, caso os compostos apresentassem comportamento mais previsível, a tendência seria de poucas mudanças de posição.
Russell chegou a brincar com a possibilidade de uma corrida com até seis paradas caso a degradação observada nos treinos se mantivesse.
No fim, a estratégia teve importância, mas não conseguiu transformar o circuito em um palco de grandes batalhas.
Bortoleto foi ainda mais direto: “uma corrida chata”
Se havia um piloto que não tinha motivos para esconder sua opinião, esse piloto era Gabriel Bortoleto.
O brasileiro da Audi terminou o GP na 13ª posição e foi bastante crítico ao novo circuito. Para Bortoleto, a falta de oportunidades de ultrapassagem foi um dos principais problemas da prova, que ele classificou como uma corrida “chata”.
A crítica ganha peso porque Bortoleto viveu na prática o problema.
Mesmo quando tinha um carro em condições de tentar avançar, o traçado não oferecia muitas alternativas. O piloto também destacou que conseguiu manter atrás de si um adversário mais rápido, mesmo com seus pneus já bastante desgastados — algo que, na visão dele, demonstra justamente como é complicado ultrapassar no Madring.
Antonelli venceu, mas reconheceu a sorte de seu lado
Kimi Antonelli foi o grande vencedor da estreia do Madring.
O italiano fez uma corrida extremamente eficiente e segurou Max Verstappen para conquistar mais uma vitória importantíssima na luta pelo campeonato.
Mas o próprio vencedor reconheceu que a corrida também foi influenciada por circunstâncias favoráveis.
O momento decisivo aconteceu quando um Virtual Safety Car permitiu que Antonelli e Verstappen realizassem suas paradas em uma janela muito mais vantajosa, enquanto Lando Norris, que liderava e vinha fazendo uma corrida fortíssima, perdeu muito tempo por não conseguir parar no mesmo momento.
Antonelli, inclusive, reconheceu que Norris tinha motivos para lamentar o resultado e que o piloto da McLaren merecia mais pelo desempenho apresentado.
Norris: “incrivelmente frustrante”
Lando Norris talvez tenha sido quem saiu de Madri com a sensação mais amarga.
O piloto da McLaren largou na pole e liderava a corrida com vantagem confortável. Seu ritmo era forte e, em condições normais, a vitória parecia perfeitamente possível.
Mas o Virtual Safety Car mudou tudo.
Norris não conseguiu aproveitar a neutralização para fazer sua parada e acabou perdendo aproximadamente 20 segundos em relação aos adversários que conseguiram parar sob bandeira virtual. O resultado foi a queda na classificação e a vitória escapando de suas mãos.
Depois da prova, o britânico classificou o desfecho como extremamente frustrante, ressaltando que, do ponto de vista de desempenho, acreditava ter feito praticamente tudo certo.
O problema é que, em um circuito onde ultrapassar é tão difícil, qualquer perda de tempo estratégica se torna ainda mais decisiva.
O Madring precisa mudar?
Essa talvez seja a principal pergunta deixada pela primeira corrida.
É importante reconhecer que o Madring possui características que os pilotos parecem apreciar. Pierre Gasly, por exemplo, descreveu o circuito como extremamente emocionante, destacando a velocidade, a proximidade dos muros e a sensação de adrenalina. Oscar Piastri também ressaltou o desafio de pilotar em uma pista em que o carro parece constantemente apontar para os muros.
Portanto, a crítica não é necessariamente à pista como desafio de pilotagem.
O problema é outro: o Madring precisa proporcionar uma boa corrida, e não apenas uma boa volta de classificação.
A Fórmula 1 precisa encontrar um equilíbrio entre circuitos que sejam tecnicamente exigentes e pistas que permitam aos pilotos usar sua velocidade para atacar.
A primeira impressão foi preocupante
A estreia do Madring deixa uma mensagem clara.
Como circuito, ele impressiona. É rápido, técnico, físico e exige enorme precisão. Os pilotos precisam trabalhar muito para encontrar o limite sem encontrar os muros.
Como palco para ultrapassagens, entretanto, a primeira impressão foi negativa.
E isso é particularmente preocupante porque os próprios pilotos já haviam previsto o problema antes da largada.
Quando uma preocupação levantada durante os treinos se confirma durante a corrida, a Fórmula 1 precisa prestar atenção.
Talvez o Madring ainda precise de ajustes no futuro. Talvez novas configurações aerodinâmicas dos carros de 2026 e o desenvolvimento dos pneus mudem o comportamento da pista. Ou talvez sejam necessárias alterações físicas no traçado.
O que não pode acontecer é transformar um Grande Prêmio em uma sequência de carros seguindo uns aos outros durante dezenas de voltas, dependendo quase exclusivamente de pit stops, estratégias e intervenções do Safety Car para alterar a ordem.
O Madring pode ser um excelente circuito para pilotar. Agora, precisa provar que também consegue ser um excelente circuito para correr.
E, depois da primeira corrida, os pilotos parecem ter chegado a uma conclusão bastante parecida: há muito trabalho a fazer para que ultrapassar em Madri deixe de ser uma missão quase impossível.
Aceleraaa com a gente, Balaclava F1.




