GRANDE PRÊMIO DE MÔNACO DE 1984; O CARTÃO DE VISITAS DE AYRTON SENNA

Ayrton Senna no GP de Mônaco 1984

Decisão polêmica encerra prova na 31a volta e dá a vitória a Prost mas desempenho fora de série do brasileiro ganha as manchetes.

Com suas ruas estreitas, curvas sinuosas e túneis, Monte Carlo seria um dos palcos mais improváveis para receber uma corrida de automóveis. Mas como desafiar as probabilidades é um dos princípios do esporte a motor, o Grande Prêmio de Mônaco não apenas se estabeleceu por lá desde os anos 1950 como se tornou um dos mais prestigiados da Fórmula 1, em que pese as condições adversas para os concorrentes. Ou justamente por causa delas: no principado, muitas vezes a potência dos carros acaba secundada pela arte da pilotagem.

Para a edição de 1984 da corrida, marcada para 3 de junho, Alain Prost se qualificou na pole-position, sua primeira com a McLaren; ao seu lado, estava Nigel Mansell, da Lotus. Em Mônaco, largar na primeira posição representa uma vantagem ainda maior do que em outros circuitos: além de evitar a tradicional confusão do grid inicial, o ponteiro pode se dar ao luxo de ser mais cauteloso do que veloz, já que a pista oferece raríssimos pontos de ultrapassagem.

Com Ayrton Senna largando na 13a posição, as chances de um pódio – o próximo item a ser riscado de sua lista, depois dos pontos, já conquistados em duas das cinco etapas anteriores – pareciam diminutas. O brasileiro, porém, estava esperançoso: apesar de seu motor Hart não ser exatamente potente, respondia bem a seus comandos – na primeira sessão de treinos, no sábado, chegou a liderar por quase uma hora a classificação. Quem sabe?

DILÚVIO DOMENICAL

No domingo, a chuva torrencial que caiu em Mônaco trouxe uma boa e uma má notícia para Ayrton. A ruim; o carro não vinha se comportando bem na pista molhada. A boa: finalmente, a Michellin forneceria seus novos pneus a Toleman, deixando-o, ao menos nessa categoria, em pé de igualdade com os pilotos das grandes equipes. E isso faria a diferença, como os testes no treino livre indicavam – e a corrida comprovaria.

Logo na primeira volta, em meio ao aguaceiro, uma colisão entre Derek Warwick e Patrick Tambay tirou os companheiros da Renault da prova; Andrea de Cesaris também abandonou. Ayrton Senna já pulava para o nono posto.

Na nona volta, Nigel Mansell ultrapassou Prost e assumiu a primeira colocação, enquanto Senna, que já havia deixado Laffite e Winkelhock para trás, pulava para a sexta posição após o abandono de Alboreto. A alegria de Mansell, que pela primeira vez chegava a ponta em sua carreira na Fórmula 1, duraria apenas até a 16a volta, quando o inglês derrapou, bateu no guard-rail e teve de abandonar a prova com o aerofólio danificado. Prost voltava para a liderança, agora seguido por Lauda; em terceiro, já estava Ayrton Senna, que ultrapassara Rosberg e Arnoux. Três volta depois, Senna também ultrapassara Lauda. Agora o duelo era com Prost.

UM RAIO NA CHUVA

Na 20a volta, a vantagem de Prost para Senna era de confortáveis 33s841; na 30a volta, despencara para 11s779.

Mais implacável que o dilúvio, apenas Senna, que nos últimos quatro giros rodava em média quatro segundos mais rápido do que o francês. Na 31a volta, a distância seguia caindo nessa mesma proporção, chegando a 7s446.

Foi quando o belga Jackie Ickx, diretor de prova, decidiu que a situação estava insustentável – a da chuva, é bom esclarecer – e resolveu finalizar precocemente a corrida, para espanto de muitos. Na linha de chegada da 32a volta, Senna ainda ultrapassaria Prost, mas a prova já estava oficialmente encerrada, com as posições registradas na 31a volta contando como o resultado final.

A decisão de Ickx entraria para o almanaque da Fórmula 1 como uma das mais polêmicas da história. A justificativa do diretor de prova e de seus defensores é a de que o dilúvio tornara a corrida extremamente perigosa, um fato que as colisões e as derrapagens evidentemente foram perigosas. Os críticos não contestavam esse ponto: apenas argumentam que as condições de pilotagem eram as mesmas do início da corrida. Assim, se a largada foi autorizada dentro das condições, não havia motivo para encerrar a prova repentinamente – muito menos no momento em que aconteceu.

Apesar de a discussão seguir quente até os dias de hoje, uma das melhores opiniões sobre o assunto foi emitida na época, ao vivo, pelo inglês James Hunt, campeão mundial de Fórmula 1 em 1976 e comentarista da transmissão ao vivo da BBC. Minutos antes da fatídica intervenção de Jackie Ickx, Hunt disparou: De um ponto de vista purista e desinteressado, não existe nenhuma razão para encerrar a corrida.

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