A REAÇÃO DO MUNDO DO AUTOMOBILISMO; SENTENÇA SEM PÉ NEM CABEÇA

Praticamente todos os pilotos da Fórmula 1 condenaram a punição ao brasileiro: afinal, como vencer uma prova sem correr riscos?

Logo após o anúncio da punição que lhe foi imposto pela Federação Internacional de Automobilismo, Ayrton Senna buscou encarar o assunto com serenidade, apesar da revolta natural com a falta de imparcialidade do tribunal. É uma guerra psicológica e são eles que querem esta guerra. Querem que eu não possa mais pilotar de acordo com o máximo de minha capacidade. Mas sou forte e continuarei dando o melhor de mim. Não vou mudar meu estilo. Quanto maior o desafio, mais quero vencer. Correr é minha profissão, minha paixão.

A atmosfera que reina na Fórmula 1 é apenas política, argumentou Senna. A McLaren e eu vamos á justiça comum para enfrentar essa batalha até o fim. Estamos absolutamente certos e sabemos que este resultado do Tribunal foi uma manipulação.

Dentre as coisas que mais o incomodavam estava o fato de ser tratado como um perigo ambulante. Pouca gente compreende que um esportista, seja um tenista, piloto ou jogador de futebol, está sujeito a estresse e tensões muito fortes. Por isto, treino corpo e espírito, com o objetivo de ganhar. Em determinado estágio, seu corpo faz exatamente o que se quer e este trabalho se justifica de uma única maneira: com a vitória. Fazemos tudo para chegar á vitória.

Quando nos impedem de chegar ao pódio, estão ofendendo a natureza humana. Principalmente se é resultado de uma decisão que não tem fundamento, explicou. Sou agressivo, não irresponsável. Para vencer, é preciso arriscar.

Não aceito ser tratado como criminoso. Prost só tinha uma chance de ganhar este ano: dizer que sou um perigo público e dividir a equipe.

MCLAREN

Enquanto Balestre e Prost o acusavam, alguns dos mais insuspeitos ases do passado tratavam de mostrar que as atitudes de Senna faziam parte do repertório de uma corrida de Fórmula 1 – incluindo aquele que, para muitos, era o maior de todos, o pentacampeão mundial Juan Manoel Fangio. Para o argentino, a punição a Senna foi lamentável, já que ninguém corre fora do propósito.

Ayrton Senna é grande piloto e não corre riscos desnecessários. Ele não é perigoso. É um dos pilotos mais velozes do momento e ainda tem tempo para ganhar outros campeonatos, sentenciou. Se tivesse de ganhar e o carro oferecesse condições para continuar a corrida, não teria dúvida em fazer o mesmo que fez Senna.

Jackie Stewart, ganhador de três títulos mundiais, também se manifestou. A suspensão de Senna é algo que me confunde, porque não prevista antes da apelação. A punição é moralmente errada, explicou o escocês.

CONTEMPORÂNEOS

Ayrton também contou com o apoio maciço daqueles que, pelo raciocínio de Balestre, mais deveriam temer sua presença nas pistas: seus adversários diretos na Fórmula 1. De forma quase unânime, as declarações dos pilotos eximiam Senna de qualquer erro em Suzuka e condenavam os critérios do pseudo-julgamento a que o brasileiro foi submetido.

Thierry Boutsen, da Williams: O Senna é simplesmente o melhor piloto do momento e é esse fato que provoca essas acusações.

Gerhard Berger, da Ferrari: Todos nós dirigimos perigosamente. Este é um esporte perigoso. Existem alguns pilotos que, infelizmente, dirigem sem cuidado e esses é que representam riscos para os outros. Mas não é o caso de Senna.

Alessandro Nannini, da Benetton: Nunca tive qualquer problema com o Senna na pista nem fora dela. Ele corre riscos, porque ninguém é campeão mundial de outra maneira.

Para encerrar o assunto, o depoimento de dois conterrâneos de Prost e Balestre. René Arnoux, da Ligier: Isso é uma bobagem. O Senna é campeão mundial, prova a toda hora que é o mais rápido. Isso mostra que sabe o que está fazendo quando tenta uma manobra arriscada. Se fosse um risco para os outros, não teria chegado aonde chegou.

Philippe Alliot, da Lola: O Senna está sofrendo uma injustiça. Mas, neste esporte, estamos sempre sujeitos a injustiças. Gostaria que alguém me explicasse como é que se pode ganhar uma corrida sem riscos.

Mais de três décadas se passaram, e ninguém encontrou essa resposta ainda.

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